Livro: migração e poesia

O idioma de um país ou comunidade é um dos pilares de sua identidade e cultura, sendo peça fundamental no processo de acolhimento de migrantes e refugiados/as. O desconhecimento da língua local pode trazer muitas dificuldades de adaptação, interação e, inclusive, de acesso a leis e direitos. A história da migrante venezuelana Lívia Vargas González (1977- ) felizmente tem um toque de poesia.

Natural de Caracas, veio ao Brasil em 2017 como estudante dos programas de doutorado em História e em Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, onde mora atualmente. Diante de um cenário de conflitos na Venezuela da época, Lívia aproveitou a oportunidade de se dedicar à sua carreira ao receber uma bolsa na universidade brasileira, pensando também no futuro de sua família.

A filósofa e professora universitária não falava português e passou a estudar por meio de aplicativos de celular quando soube da bolsa de estudos – na época, não imaginava que um dia seria uma das ganhadoras de um concurso de poesia com a maioria dos textos em língua portuguesa. O livro “Fantasmagorias da trama” (Ouro Preto: Edit. Ameopoema, 2021), um dos cinco volumes da coleção “Você gosta de poesia?”, contém 24 poemas.

“A poesia para mim, mais do que uma decisão ou uma procura, é uma surpresa. Eu acho que cada verso e cada poema que eu escrevo resulta da minha disposição para traduzir aquilo que me atinge e me surpreende. Meus poemas carregam, especialmente, todo o acúmulo de vivências, caminhos e travessias que eu percorri ao longo da vida e onde a palavra ocupa um lugar muito central”, contou Lívia para o FICAS.

Lívia também é professora de espanhol da Andreia Saul, idealizadora do FICAS, que vem buscando se aperfeiçoar no idioma desde que começou a trabalhar mais diretamente com migrantes, em especial, latino-americanas. Em 2018, o FICAS idealizou o Programa de Formação de Coletivos de Migrantes e Refugiadas em uma parceria estratégica com a Fundação Avina e a Missão Paz. Até o momento, foram realizadas três edições em São Paulo, com a participação de mais de 150 mulheres filipinas e bolivianas.

> Lívia está disponibilizando gratuitamente a versão digital de seu livro, que pode ser baixado aqui: Fantasmagorias da trama (download). A versão impressa pode ser adquirida por seu perfil no Instagram @liviavargasgonzalez.

Confira entrevista com a autora Lívia Vargas González:

Gostaria de compartilhar sua história de migração?
Seis meses antes da minha vinda para o Brasil, soube que tinha sido contemplada com uma bolsa de doutorado na UFOP. Justo às vésperas da minha vinda, tinha se intensificado muito a situação de crise e de conflito no meu país. A escassez de alimentos, a impossibilidade de adquiri-los por causa da hiperinflação, os conflitos nas ruas… Enfim, esses anos 2016 e 2017 foram muito difíceis para nós venezuelanos. Eu acabei aproveitando essa oportunidade também para poder ajudar à minha família e aos meus afetos mais importantes. Eu saí do meu país com um turbilhão de emoções! Imagine essa concorrência entre o sentimento lancinante que gera ter que te separar dos teus seres mais queridos e importantes (teu pai, teu filho, tua família, teus amigos), dos sabores, dos cheiros, das cores… e, ao mesmo tempo, a empolgação pela concretização de um dos teus sonhos mais importantes. Nostalgia e expectativas conjugadas num mesmo corpo, numa mesma vida, num mesmo momento. E eu senti isso tudo enquanto viajava e chegava no que seria meu novo lar.

E como foi chegar ao Brasil?
Eu sempre falo que eu sou uma mulher privilegiada pela vida. Desde o primeiro dia em que eu cheguei aqui, sempre recebi e ainda recebo muito acolhimento. Têm sido muitos braços e peitos abertos para me acolher nos distintos espaços e momentos em que estive. Isso tem me dado forças para afrontar a minha experiência migratória nestes últimos cinco anos.

Desde quando você escreve?
Minha experiência com a palavra começou desde muito criança. A escrita tem, para mim, um peso afetivo muito grande. Foi com a escrita que eu consegui abraçar meu pai quem, em várias ocasiões, esteve distante de nós e a única forma que tínhamos de nos falarmos era através das cartas. Minha mãe também sempre lia contos para nós e isso era uma coisa que eu amava! No ensino médio, eu dirigia o jornal estudantil do colégio e gostava de escrever contos e quando comecei estudar Filosofia na universidade, essa pulsão de escrita aumentou.

Você comentou que foi desestimulada a escrever poesias por um amigo escritor na época da faculdade. Como foi o reencontro com este tipo de texto?
Foi uma epifania que me surpreendeu um dia em 2019. Eu estava lendo um poema de Drummond de Andrade chamado “Procura de poesia”, na minha casa em Mariana (MG), e foram emergindo, quase compulsivamente, os versos que comporiam meu “primeiro” poema, chamado “Qué me queda, qué guardo, qué de ti llevo conmigo” e que está dedicado à minha mãe. A partir desse momento, a poesia converteu-se na minha forma de traduzir minhas experiências afetivas do mundo e agora eu não consigo parar, especialmente desde que começou a pandemia. Mais do que uma decisão ou uma procura, a poesia na minha vida foi uma surpresa. E olha que surpresa!

Fale sobre o concurso que participou e seu livro Fantasmagorias da trama.
Assim que a poesia me surpreendeu, passei a recorrer a ela para traduzir o que sentia e, nestes dois últimos anos, escrevi muitos poemas, que fui organizando como tijolos em vários “poemários” para serem publicados em algum momento. Um dia quando voltava de uma caminhada, no poste da entrada da minha casa, tinha um cartaz anunciando a convocatória para o 1º Prêmio de Poesia Ameopoema e pensei: “Essa é a minha vez”. Cheguei em casa, pesquisei sobre o prêmio e vi que o edital estava dirigido a todos aqueles que morassem nos distritos de Mariana e de Ouro Preto, sem distinção de nacionalidade. Paula, você não imagina como isso me fez sentir bem! Reorganizei os “tijolinhos”, traduzi para o português alguns deles, revi uns manuscritos… Quando vi meu nome entre os finalistas, eu não acreditei! O que veio depois foi uma experiência muito linda, porque a decisão final dos ganhadores contou com votação popular, via Facebook, o que me permitiu mobilizar e ativar toda minha rede de afetos. Se você me perguntar o que foi o mais importante para mim nisso tudo, te direi que foi essa experiência afetiva que se manifestou no momento da votação e que fez com que eu ficasse em primeiro lugar.

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